quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A irracionalidade dos extremos

      Recentemente, assisti um compartilhamento no facebook. Duas amigas haviam postado um vídeo da filósofa Márcia Tiburi onde ela fala do fascismo e da burrice das pessoas. Como eu gosto de ouvir as opiniões divergentes da minha (deduzi que seria diferente levando em conta o histórico destas duas amigas), assisti o vídeo.
      De início agradável e racional, a idéia da filósofa passou a ser apaixonada e muito preconceituosa. Não pretendo rebatê-la (como até pensei em fazer na sua página do facebook) porque o brilho das mentes abertas que acreditei haver nela, percebi, não brilha tanto assim.
      Em vez disso, resolvi escrever a respeito do mundo e das pessoas. o resultado é mais ou menos o que está abaixo.

      Quando falamos de um assunto que possui um mínimo de subjetividade, temos, pelo menos, três tipos de pessoas expressando sua opinião: as que concordam plenamente, as que discordam plenamente e as que concordam e discordam em partes. Na maior parte dos casos, senão todos, este último tipo de pessoa é o mais racional. E é assim, porque compreende melhor aquele assunto subjetivo. Vejam que falo de compreensão, não de julgamento.

      Sobre isso, farei um adendo: a ordem certa quando se quer falar sobre algo ou alguém é primeiramente compreender, depois julgar. Primeiramente entendemos as motivações, os fatos. Depois, ao contrapor com nossos valores, julgamos se concordamos ou não. Por isso, fazendo um paralelo com a jornalista do sbt Raquel Sherazade, quando dizemos que algo é "compreensível", não estamos dizemos que concordamos. 
      E como compreendemos um assunto? Quando temos quantidade de informações suficientes para chegar a conclusões razoáveis. Em outras palavras, para compreender algo, precisamos do máximo de informações possíveis, empatia e vontade. Às vezes, temos informação, mas não temos vontade Em outras situações, temos vontade, mas não informações. Tudo isso influencia sua compreensão e, consequentemente, seu julgamento. Por exemplo, se um leigo em mecânica tenta explicar como um avião que pesa toneladas pode voar, ele provavelmente vai falar alguma bobeira. Talvez esta bobeira, se fizer sentido e for convincente, agrade outros leigos, mas sem dúvida, será chocante para um mecânico de aviões. Da mesma forma, se eu quero explicar qualquer assunto, exemplo, Ditadura Militar, eu tenho que ter o máximo de informações possíveis, não apenas as da "metade derrotada", mas isso é outro assunto que exige um post apenas sobre ele.

      Ok, voltemos a questão dos julgamentos.

      O que mais observamos são pessoas que julgam sem compreender. E estas pessoas geralmente se enquadram naqueles dois primeiros tipos que citei: os que concordam plenamente e os que discordam plenamente. São os tipos menos racionais (não menos inteligentes, menos racionais, ou seja, que usam menos sua razão por querer), porém, os que mais aparecem.
      Quando se concorda ou discorda plenamente de algo, você expressa melhor a sua opinião. Você tem menos dúvidas. Você não precisa pensar muito. São as pessoas da #simplesassim. Exatamente por verem o mundo mais preto e branco, seus julgamentos são fáceis e óbvios. O mundo se resume a: meu lado (Bem) e o outro lado (Mal). Um maniqueísmo quase sempre explicado pela Ideologia do Oprimido.
      Por este fato, quando vejo alguém dizer expressões do tipo "fascista" ou "elite branca", a sensação que tenho é a de que falta um pouco de maturidade no comunicador. Quando não, falta de honestidade. Se você chama alguém de fascista, está centralizando no outro todos os males do totalitarismo, repressão e violência. Praticamente anulando a possibilidade de defesa do outro. Vemos isto o tempo todo. Lembro que, para justificar a Guerra do Iraque, George W. Bush dizia o tempo todo que os EUA deveriam combater "o Mal". Dilma, em sua campanha à reeleição da Presidência do Brasil, clamava sempre que seu partido era o único preocupado com o "social", com a desigualdade, e que os outros eram os "privatizadores", a "elite", etc.
      Machado de Assis, em sua obra "O Alienista", conta a história do Dr Simão Bacamarte que, tomado por boas intenções, busca tratar os loucos de sua terra natal. Com o tempo, o Dr. Bacamarte vê loucura em tudo e todos, interna a maior parte dos cidadãos no manicômio e só pára quando conclui que o único louco é ele mesmo, se internando sozinho. Logo, duvide quando observar pessoas que vêem fascismo, homofobia e racismo em tudo.
      Por isso, faço um chamado à reflexão. Da próxima vez que alguém perguntar sobre um assunto polêmico, responda "depende do ponto de vista". Quando perdemos os outros pontos de vista, também perdemos a capacidade de entender o próximo. Isso chama-se burrice.


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